OPINIÃO: A ética do fã de futebol americano

Não consegui dormir essa noite, mas não foi porque estava assistindo ao Monday Night Football. O jogo acabou para mim aos 11:25 do 1º quarto, quando Ryan Shazier caiu no chão incapaz de mover as pernas. Um cara de 25 anos, no auge da forma física, poderia nunca mais voltar a andar, mas ao que tudo indica teve sorte e escapou desse destino trágico. Isso em um final de semana em que vimos uma superestrela da Liga causando uma concussão em um companheiro de profissão, um QB que pareceu ter sofrido o mesmo problema mas foi rapidamente liberado pelo protocolo da Liga. Esse esporte existe para o nosso entretenimento, mas com todas as informações que temos em 2017 sobre os riscos de saúde será que ele deve continuar existindo?

Essa rodada foi um microcosmo dos riscos de curto e longo prazo da NFL, o que faz qualquer pessoa com um cérebro e um coração refletir. “Antigamente era muito mais perigoso”, sim, mas não significa que seja seguro hoje. Felizmente o número de casos como de Ryan Shazier não são grandes, mas qualquer quantidade maior que zero deveria ser inaceitável. Tanto se fala da queda de audiência por diversos fatores, mas sem dúvida a incapacidade da Liga de tornar o futebol americano seguro é a maior ameaça ao futuro do esporte. Cabe a pessoas mais inteligentes do que eu a definirem o que mais precisa ser feito, mas é difícil acreditar que esse formato atual sobreviva por muito tempo.

Essa noite refleti sobre a ética de continuar não só assistindo ao futebol americano, mas também cobrindo e consequentemente o divulgando aqui no Brasil. Eu já joguei esse esporte, mas nunca mais o faria e se pudesse voltar no tempo convenceria o Gabriel do passado a não fazê-lo. E se não tenho mais coragem de praticá-lo, como posso me sentar e assistir a outros jogando? Homens jovens, grande parte de origem humilde, colocando sua saúde na linha a cada domingo, cada snap pode ser o último deles. Com todo risco que correm, você tem certeza que eles são bem compensados? As superestrelas talvez, a grande maioria não. Não tenho a resposta dessa pergunta.

Eu acredito que a NFL quer tornar o esporte mais seguro, isso depois de muitos anos tentando varrer os problemas para debaixo do tapete. As regras mudaram consideravelmente na última década com essa intenção, mas parece que ainda existe muito a ser feito. O protocolo de concussão é o mais urgente e precisa ser aprimorado. Deixem que reclamem que hoje em dia os jogadores são “frouxos”, que vai virar flag. Não existe outra alternativa, os jogadores não podem pagar com sua saúde para que possamos ter algumas horas de entretenimento aos domingos.

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