Nate Boyer, ex-fuzileiro naval e long snapper do Seahawks, bate papo com o FA Hoje

Publicada originalmente em 25/11/2015
Nós, que amamos esportes, levamos tudo tão a sério que as vezes esquecemos que existem lutas mais importantes sendo travadas fora das quatro linhas. Nate Boyer, no entanto, conhece esses dois lados como poucos. Após o 11 de setembro Nate resolveu lutar pelo seu país contra o terrorismo, mas não deixou o seu sonho de criança morrer. Após um longo período servindo como Boina Verde, uma das unidades de elite do exército americano, ele conseguiu uma vaga como Long Snapper no Texas Longhorns, uma das universidades mais tradicionais do futebol americano universitário.

‘Quando eu saí do Afeganistão e fui trabalhar na Guarda Nacional no Texas e decidi voltar para a faculdade, eu tinha adquirido muita confiança em mim mesmo e decidi tentar seguir esse sonho de jogar futebol americano, mesmo aos 29 anos. Eu estava muito nervoso, mas o sentimento de nem ao menos tentar era muito maior então tentei. Se eu não conseguisse, nada iria mudar, mas se eu tentar ficaria muito orgulho e daria o meu máximo, ia forçá-los a ter que me tirar a força do campo’, disse.

Depois de quatro anos com o Longhorns, Nate enfim realizou o seu sonho de entrar na NFL. Após não ser draftado, ele assinou com o Seattle Seahawks e participou do Training Camp lado a lado com estrelas como Marshawn Lynch, Earl Thomas e Richard Sherman. A vaga no elenco final, no entanto, não veio, mas os seus feitos já ficaram marcados para a posterioridade. Nesta quarta-feira ele conversou com o FA Hoje e contou histórias do período com o Seahawks, revelou o porquê de Marshawn Lynch e Earl Thomas serem tão adorados pelos seus companheiros e também contou como foi lutar no Oriente Médio, não perca!

FA Hoje: Nate, antes de começarmos, muito obrigado por aceitar esse convite para conversar com a gente.

Nate Boyer: O prazer é meu, obrigado por entrar em contato. Fico muito feliz por ter a chance de poder compartilhar as minhas histórias com vocês do hemisfério sul.

FA Hoje: Como foi a experiência de servir o seu país no exército, lutando no Afeganistão e no Iraque?

Nate Boyer: Nos dá uma perspectiva muito legal, nos deixa mais humilde. Na verdade não cresci sonhando em servir o exército. Eu era muito grato por tudo que tinha mas não achava que tinha algo para oferecer, nunca tinha pensado em ir lutar em uma guerra. Eu tinha 20 anos quando aconteceram os atentados de 11 de setembro, então a forma como eu pensava mudou bastante, acho que a cabeça de muita gente mudou também. Eu meio que me tornei mais patriota nesse estágio da minha vida. Fui fazer alguns trabalhos como voluntário no Sudão, foi então que percebi como as pessoas lá não tinham as mesmas coisa que eu, e que valia a pena lutar por isso. A chance de poder ajudar essa região dessa forma, ajudar as pessoas a terem as mesmas chances que eu, não pensar só em mim mas nos outros, no meu país, foi algo que me mudou. Todos os desafios que passei, como o treinamento para me tornar um boina verde, que é difícil até para as pessoas mais fortes, um nível de elite do exército americano. Todos os dias eram difíceis e fazem você querer desistir, mas você acaba pensando nas pessoas perto de você e tudo que você quer é mantê-los seguros, seus irmãos. Esse vínculo, esse espírito de equipe… eu aprendi muito servindo o exército e posso ficar falando aqui para sempre.

FA Hoje: Jogar futebol americano sempre foi um sonho seu ou foi algo que, quando você chegou na Universidade do Texas, você viu que era possível e quis tentar?

Nate Boyer: Na minha infância eu sonhava jogar futebol americano na universidade, na NFL. Quando era jovem minha mãe não deixava eu jogar porque o meu pai jogou e sofreu algumas lesões, então acho que ela estava com medo, não queria que eu sofresse alguma lesão na cabeça, por exemplo. Então eu não joguei futebol americano, mas joguei beisebol, basquete, “soccer”… quer dizer, futebol (risos)… esses outros esportes, mas futebol americano sempre foi o meu favorito e eu tinha um pouco de ciúme até, porque quando eu estava um pouco mais velho ficava pensando que não teria chance contra pessoas que já jogavam a vida toda e então acabei não jogando e isso sempre me chateou, por muito tempo. Quando eu saí do Afeganistão e fui trabalhar na Guarda Nacional no Texas e decidi voltar para a faculdade, eu tinha adquirido muita confiança em mim mesmo e decidi tentar seguir esse sonho de jogar futebol americano, mesmo aos 29 anos. Eu estava muito nervoso, mas o medo de nem ao menos tentar era muito maior então tentei. Se eu não conseguisse, nada iria mudar, mas se eu tentar ficaria muito orgulho e daria o meu máximo, ia forçá-los a ter que me tirar a força do campo.

FA Hoje: Eu li aqui que você chegou a treinar a jogar como Long Snapper durante sua passagem no Iraque, vendo vídeos no YouTube, como foi isso?

Nate Boyer: Foi exatamente isso, eu comecei no Iraque e continuei treinando assim no Afeganistão. No Iraque eu treinava mais exercícios de futebol americano em geral, trabalho de pernas, correndo rotas, correndo de costas igual a um defensive back. Quando entrei na Universidade do Texas percebi que a posição de Long Snapper era algo bem específico que poucas pessoas conseguiam fazer. Eu nunca tinha jogado de Long Snapper antes, eu já joguei beisebol, era um pitcher então tinha um bom braço. Uma pessoa me disse que se eu conseguia arremessar bem também conseguiria arremessar por debaixo das pernas, existiam similaridades. Naquele verão fui para o Afeganistão por quatro meses e comecei a treinar todo dia e nos primeiros eu era muito ruim, mas consegui ir melhorando aos poucos, assisti vídeos para aprender, copiar o que os profissionais faziam e eventualmente consegui aprender. Comecei a controlar mais o espiral, consegui fazer a bola ir mais rápida, começava a acertar alvos, o exército do Afeganistão tinha uma trave de futebol e eu ia lá e acertava no travessão. Eventualmente fui melhorando e quando voltei eles deixaram eu competir pela posição na Universidade do Texas e consegui ganhar a titularidade.

FA Hoje: Como foi fazer parte do Seattle Seahawks, um das franquias de maior sucesso nos últimos anos, como foi essa experiência?

Nate Boyer: Foi incrível. Depois que terminei a universidade tive a oportunidade de treinar e tive a chance de jogar na NFL. Eu tinha 34 anos, então não tinham muitos times interessados por causa da minha idade e eu sou um pouco pequeno para a posição, mas haviam alguns times de olho. Quatro me convidaram e no final escolhi o Seattle Seahawks, que como você disse é um dos times de maior sucesso nos últimos três anos. Não podia recusar a oportunidade de ir competir com os melhores. Me lembrou de quando entrei no exército, vou tentar ser um soldado comum ou vou tentar me tornar um Boina Verde, que é a elite ? Nada de errado ser um soldado comum, mas eu queria competir no mais alto nível, treinar e trabalhar com os melhores, no futebol americano também então decidi aceitar a oferta do Seahawks. Antes de tudo Seattle é uma cidade linda, povo incrível. Dentro do vestiário é uma verdadeira irmandade, acho que isso é muito raro na NFL. Existem muitas pessoas de personalidade forte, mas você acaba conhecendo esses caras e eles são muito humildes e preocupados com o time. Tudo que eles fazem no campo, na academia e na sala de filmes é para fazer que todos melhorem. Não dá para recusar a oportunidade de estar ao redor deles, mesmo eu sendo o cara mais velho do time como rookie e o único com experiência no exército, ainda existia muito para eu aprender com eles, não só competindo no nível mais alto mas também como ter sucesso. Foi uma ótima oportunidade, acabei jogando em algumas partidas de pré-temporada mas no fim não consegui uma vaga no elenco final, mas não me arrependo.

FA Hoje: Como foi estar lado a lado com estrelas como Marshawn Lynch, Russell Wilson, Richard Sherman e Earl Thomas. Alguma história específica que te marcou?

Nate Boyer: O que foi muito interessante era o contraste de como a mídia retrata certos jogadores como Marshawn Lynch e Richard Sherman, que eles são os “bad boys” da NFL. Certamente eles fazem bastante “Trash Talk”, a mídia os mostram como pessoas distantes, que gostam de falar muito durante o jogo, se divertirem e só se importam com eles mesmos, mas não é a verdade quando você os conhece. O Marshawn Lynch ia até os outros running backs dos times e dava muitos conselhos, mesmo entendo que lá eles estavam brigando por tempo em campo, mas ele entende o seu papel na equipe e como todos o adoram, então ele quer fazer com que esses caras melhorem. O mesmo vale para o Richard Sherman e o Earl Thomas na defesa. Eles se preocupam em ajudar os rookies e os outros jogadores a melhorarem porque quando um melhora isso ajuda o time e eventualmente ajuda a todos. Eu lembro de ver o Earl Thomas, mesmo enquanto ele estava machucado nas primeiras semanas do Training Camp, mas todo dia ele ficava na lateral com um caderno fazendo anotações em cada snap e depois quando os defensive backs saíam de campo, não importa se fossem rookies ou veteranos, ele ia e falava o que ele tinha visto e ajudava os técnicos. Fiquei muito surpreso com isso, mas também muito feliz e me fez entender porque eles tem sucesso. Existem muitos times que tem o talento mas não conseguem vencer e acho que é isso que está faltando, um companheiro ajudar o outro, esse espírito de competitividade e também a vontade de se ajudarem em campo, corrigindo os erros pequenos e fazendo com que todos sejam responsáveis.

FA Hoje: Qual a importância do Pete Carroll nessa cultura criada dentro do Seattle Seahawks?

Nate Boyer: O Pete é um treinador de universidade, ele teve muito sucesso no futebol americano universitário, que tem um vestiário muito diferente da NFL. Os jogadores não recebem salário no College, os treinadores sim, então nesse mundo os técnicos tem o poder. Na NFL, no entanto, os jogadores tem maiores contratos, tem mais poder e precisam ser agradados, se não eles podem se recusar a jogar. Você tem que ter uma abordagem diferente. Eu acho que o Pete Carroll foi muito inteligente, entrando lá com uma atitude no vestiário em que o foco são os jogadores, se certificando que tudo está certo com eles e que eles estão feliz. Ele construiu essa cultura da competição, assim como na faculdade onde tudo é competitivo e tudo que você faz é junto em um grupo. Na NFL quando o treino ou o jogo acaba, cada um vai para o seu lado. Alguns voltam para as suas famílias, outros vão sair com seus outros amigos e todo mundo se separa. Ele, no entanto, incentiva essa cultura igual ao do futebol americano universitário, de se importar com o seu companheiro, não jogar apenas pensando em si mesmo, mas ao mesmo tempo se preocupando em transformar o treino em atividades divertidas. Não é apenas um trabalho, não deveria ser, é um jogo, você está jogando um jogo e deveria ser divertido. Muita gente pensa no seu trabalho como uma necessidade para colocar comida na mesa, mas uma vez que futebol americano se torna isso, boa sorte tentando vencer, porque quando você treina contra a sua vontade, você não vai melhorar. Isso é algo que mostra bastante quem é o “Coach” Carroll. Ele trabalhou na NFL antes em que não teve sucesso, perdeu muitos jogos. Acho que ele não estava em um bom momento psicologicamente. Quando ele voltou para o College, para USC, ele mudou tudo, sua vida, seus métodos, ele começou a praticar muito Ioga e testar tipos diferentes de treino, se preocupando com o lado mental do jogo. Também se preocupando em passar isso para os jogadores, tentando transformar o ambiente do time em local se estresse. Os técnicos não gritam com os jogadores. Se algo está sendo feito errado, eles chamam a pessoa na lateral e explicam, claro que tem que consertar, mas aquela gritaria toda não funciona na NFL com caras mais maduros. Não dá para elogiar o Pete Carroll o suficiente e tudo que ele faz.

FA Hoje: As pessoas só prestam atenção no Long Snapper quando ele comete algum erro, não existe margem de erro. Como um soldado, estando numa missão, certamente também não tem margem de erro. Existem similaridades entre ser um soldado e ser um jogador de futebol americano?

Nate Boyer: Existem similaridades, mas vou começar dizendo que futebol americano e guerra não possuem nada igual. Muita gente fazem essa conexão, mas acho que é só um jeito de falar, não dá para realmente acreditar nisso. Falando na disciplina, a irmandade, a amizade, os dois tem muitas coisas em comum. Falando em Long Snap especificamente, eu sempre comparei com o ato de atirar com uma pistola. Eu não atirava com armas quando era mais jovem, então aprendi tudo no exército e é uma série de pequenos movimentos que colocando todos juntos se torna um tiro bem sucedido. Tirar a arma, levantar, apontar para o seu alvo e apertar o gatilho. Nesse ponto futebol americano é parecido, você tem uma rotina e você acaba ensaiando bastante esses movimentos pequenos, essas peças do quebra-cabeça, mas quando você coloca tudo junto você acaba aprendendo a fazer algo maior. Você precisa de muito tempo, muita concentração. Os dois certamente tem muitas similaridades, futebol americano e o exército, principalmente a parte mental, a vontade de sacrificar muito para se tornar o melhor possível.

FA Hoje: Para terminar, qual é o seu próximo passo?

Nate Boyer: Meu grande projeto agora que tenho agora é chamado “Conquering Kili”, Kili é um diminutivo para Kilimanjaro. Existe uma organização chamada “Water Boys”, que foi criada por um jogador chamado Chris Long, dos Rams, e após eu ser dispensado do Seahawks, ele me ligou e perguntou se eu queria fazer parte dela. Basicamente o que essa organização faz é, através do futebol americano, eles levantam dinheiro para levar poços artesianos com água limpa para a Tanzânia. O objetivo é escavar 32 poços através dos 32 times, então cada time tem que levantar recursos para fazer um. O Monte Kilimanjaro é na Tanzânia e o Chris me ligou perguntando se eu queria participar, se eu tinha alguma idéia envolvendo veteranos de guerra. Eu sugerir levar um veterano que se feriu em batalha, no caso o que eu escolhi foi um cara que perdeu uma das pernas na sua primeira ida ao Iraque, o nome dele é Blake. Eu e o Blake vamos escalar o Monte Kilimanjaro para arrecadar dinheiro para esse projeto. Até agora já conseguimos 100 mil dólares, que é suficiente para dois poços, mas o nosso objetivo é 1 milhão dólares, que daria para construir 22 poços lá. Esse número é porque todo dia 22 veteranos de guerra nos Estados Unidos acabam cometendo suicídio. O motivo para isso acontecer é que é muito difícil fazer a transição da guerra para a vida comum, eles acabam sentindo que nunca mais farão algo que tenha importância assim como o que fizeram lá fora. Esse projeto é uma forma de continuar ajudando as pessoas do terceiro mundo sem precisar pegar numa arma, então é a forma que eu e outros veteranos encontramos de ajudar. Se as pessoas quiserem ajudar o site é waterboys.org/kili e o projeto de escalar o Kilimanjaro é o que vem me motivando após o futebol americano. Eu talvez volte a jogar, eu ainda estou treinando e talvez participe de algum training camp no ano que vem, ainda não tenho certeza, mas é uma forma que encontrei de ajudar fora de campo e o futebol americano me deu essa plataforma. Acho água limpa no terceiro mundo é algo que será consertado bem rápido, quero fazer parte desse esforço. Esse é uma das principais necessidades que nós americanos nem pensamos, também existe comida, saúde, que são necessidades maiores no terceiro mundo e podem ser melhoradas. Acho que com isso muitas ameaças de terrorismo vão acabar. Muitas pessoas nesses países de onde as ameaças vem não possuem educação e não tem boas condições de vida, então é fácil de talvez ficar com inveja do que países como os Estados Unidos e isso as vezes se transformam em violência, então temos que ajudar essas pessoas e tentar fazer o mundo um lugar melhor.

FA Hoje: Nate muito obrigado por conversar com a gente e boa sorte escalando o Kilimanjaro!
Nate Boyer: Obrigado, agradeço muito!

Não esqueça de entrar em http://waterboys.org/kili e contribuir com o excelente trabalho realizado por Nate Boyer!

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